A última vendinha

Há cinco anos (2010), um infarto levou o comerciante Militão Martins, aos 82 anos. Proprietário de uma mercearia quase artesanal, na subida da rua Fidalga (553), ele já havia operado o fragilizado coração duas vezes. Não resistiu ao último baque.

O comerciante Militão Martins, 82 anos, em sua mercearia rua Fidalga; foto tirada em 2010

Quem teve a sorte de conhecer o pequeno estabelecimento, deparava-se com um cenário perdido no tempo que lembrava as pequenas vendinhas do interior. Lá, não tinha computador e nenhum vestígio de automação para a logística do negócio.
set. 2010 024
Logo na entrada, viam-se grandes sacos abertos de arroz, feijão, farinha e do teto pendiam os ingredientes da feijoada: linguiça, bacon, paio… As prateleiras de madeira exibiam garrafas de bebida, de manteiga e de pimenta que ele mesmo fazia.
militão (2)
Certo dia, comprei um pacote de café (industrializado) que trazia um pequeno medidor de plástico como brinde. Alheio à modernidade, Militão entregou-me o objeto como se estivesse dando um belo presente. Guardo comigo até hoje.
setembro 2010 068
Dono de prosa ininterrupta, o comerciante possuía memória invejável e quando decidia abrir o baú de lembranças só calava para atender algum freguês ‘das antigas”. Uma senhora subia os degraus com dificuldade, cumprimentava, pedia algumas cabeças de alho e um quilo de feijão. Militão pesava os grãos na balança e anotava o valor da compra no ‘caderninho de fiado’.
“Comprei esse terreno por volta de 1965”, disse ele um dia. “Ali em frente, onde hoje é este prédio, existia uma cocheira para criação de cavalos”, apontava. “Essa rua chamava-se estrada da Boiada e, aqui, era um morro com capinzal. Quando chovia a carroça não subia”, explicava.

A antiga mercearia hoje abriga um estacionamento

E prosseguia: “Há 20 anos, vendia muito fogão de lata. Quando começaram as construções havia fila na mercearia”, lembrava ao som de uma bela gargalhada. “Há cerca de quinze anos, as vendas ainda eram boas até a chegada dos supermercados”, concluía, recapitulando a época em que aportara na cidade.
Tinha acabado de chegar com a família de São José do Rio Pardo (SP). No dia seguinte seu pai faleceu. Então, aos dez anos, foi enviado à rua Teodoro Sampaio em busca do patrão de sua irmã, um português de apelido Gentil, que acabou salvando-lhe a pele. “Chamava-se Manoel Jorge Batata e, ao ouvir minha história, ficou condolente. Foi através dele que vim parar aqui. Carreguei tanta banana nas costas que fiquei torto”, brincava.
IMG-20150914-WA0000
Recebeu algumas propostas de compra do terreno de 500 m2, inclusive do Banco Itaú, mas tinha medo. Atrás da vendinha, abriu um estacionamento de veículos para os filhos. Com sua morte, a mercearia veio abaixo e o negócio com carros foi ampliado. “Estamos esperando uma boa oferta para vender o terreno”, diz o filho Francisco. “O lote é estreito e com a nova Lei de Zoneamento ficou difícil aceitar propostas”.
Quem passa pelo local, ainda dá para perceber resquícios daquela casinha onde outrora Militão tentava manter o estilo simples de gente do interior. Em breve, não haverá mais rastros. Mas a figura daquele homem dedicado e generoso ficará para sempre na memória.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s