O guardião

No supermercado deparei com a sessão de bolos. Institivamente, lembrei de Radil, meu vizinho turco que, desde que perdeu a mãe, há cerca de três anos, vive só. Decidi levar um bolo –que ele adora com café. A tarde caía.

Toco a campainha da casa, um imóvel improvisado que ele mesmo construiu. Com dificuldade, desce a escadaria. “Ando mal das pernas!”, adverte.

Conheci Radil e Maria Conceição Muniz, sua mãe, em encontros nada usuais nos novos tempos. Sempre que passava pela Wisard, rua em que ele ainda mora, a cena era a mesma. Radil levava a mãe à rua para o banho de sol diário. Maria estava velhinha, pouco se locomovia e já não falava.

Engatava um papo com Radil, os olhinhos de Maria subiam até minha face, como que querendo dizer algo, mas a voz silenciava em pura introspecção. Estabeleceu-se um ritual. Encontrava os dois, parava, conversava, ia à padaria e na volta trazia-lhes pães e doces. Certo dia, encontrei Radil sozinho, entristecido, sentado na batente da porta. Nem precisei perguntar o que houve. Dona Maria havia falecido.

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Maria foi apenas mais uma mulher da família que Radil cuidou, alimentou, asseou, medicou e… Sepultou. A situação já não era tão inóspita para ele. Antes, passara por situação similar com a irmã e a própria esposa. “Minha mãe morreu de velhice. Mas sua saúde degringolou depois que minha irmã partiu. Elas eram grudadas. A pressão entrou em pane e não saiu mais de casa”.

A Morte Ronda

O diálogo começava a fluir sem entraves. Eis que se aproxima uma mulher de preto.

– Desculpa interromper, seu Radil. O senhor soube que meu marido morreu?

– Soube sim, desculpa não ter ido. É que não ando muito bem…

– É. O senhor não anda muito bem…

– Mas tem que ficar sofrendo? – questiona.

(Dona Aparecida, ou apenas Cida, fala de Carlos, ou Carlinhos, o esposo que morreu recentemente. Além de Cida, deixou um casal de filhos. Carlinhos integrava a ala da resistência contra a verticalização no bairro. Recusou a várias propostas de construtoras com um único argumento: “Tenho paz na minha casa. Meu quintal tem árvores frutíferas e vive cheio de passarinho. Por que iria querer vender?”).

– Pois é! Ele ficou dois meses e meio no hospital. Duas paradas cardíacas, duas respiratórias, os rins paralisaram, foi entubado duas vezes… As coisas foram complicando… Mas ele enfim descansou. Coitadinho.

– Quero lhe dizer uma coisa –acrescenta Radil.

-Vida pra frente…

– Tá difícil…

– Quem foi não volta, mas está num lugar melhor que nós. Minha esposa faleceu quando íamos fazer 50 anos de casados…

– Nós íamos fazer 50 anos agora…

– Eu dizia pra minha esposa: se eu for primeiro você trata de continuar vivendo, não vai ficar encolhida que não adianta. Ela faleceu, depois de dois anos faleceu minha irmã…

– A minha mãe foi há três anos, minha irmã foi há dois e meu irmão foi este ano. Agora meu marido… Fiz tudo o que pude, ainda assim me cobro por coisas que eu deveria ter feito –diz Cida.

– Mas é assim mesmo, a gente começa a se culpar. Mas não pode. Eu dei banho na minha esposa, na minha irmã, na minha mãe… Cuidei de todas.

– Meu filho não está aceitando a morte do pai… Ele acha que nós não deveríamos ter tirado ele do hospital…

– Faça-me o favor dona Cida. Não se entregue. Continue sua vida, seu trabalho… Agora que acabou não pode se entregar. Temos filhos bons, eu tenho três netos… –empenhava-se em aliviar a dor.

Fortalecida, Cida agradeceu e partiu.

A Vila

“Cheguei à Vila com menos de um ano de idade. Tenho 79. A primeira casa que meu pai comprou foi na Rua Laboriosa. Não ficamos lá seis meses, ele adquiriu esse terreno aqui e construiu. A casa lá era melhor”, lembra Radil.

“Não tinha nada, nem rua. Era mato. Aqui andávamos que nem no interior, embrenhados em trilhas – que era mais fácil”.

Com a chegada do bonde e da Light, na primeira metade do século 20, o cenário mudou. “Mas continuamos enfrentando os mesmos impropérios. Caminhávamos pelo único caminho desmatado. Com chuva, era difícil descer a rua Harmonia. Havia um barranco de seis metros que dava na rua Aspicuelta. Tinha que se apoiar na cerca ou no mato. Havia uma escadaria improvisada mas quando chovia tudo desmoronava”, explica, lembrando que o percurso desembocava na avenida Pedroso de Moraes, pertinho do Largo da Batata.

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O comércio se concentrava lá, no Largo. “Onde tudo acontecia”. Um enfileirado de compartimentos telhados que vendia todo tipo de produto. Em 1935, 1940, a luz à base de querosene predominava entre os moradores. “O fogão era uma lata com grelha, alimentado por carvão e tínhamos que fazer uma coisa por vez: feijão, arroz…”.

“A única vendinha existente por aqui ficava no lugar daquela padaria nova (Le Pain Quotidien, na Wisard). Chamava Armazém Mistral e abastecia a população com o essencial. Depois surgiu outro na Aspicuelta, esquina com a Girasol. Na verdade, era uma venda dentro da marcenaria. Tinha lugar para vender pinga e, separadamente, arroz, cebola…”.

Quando a energia elétrica chegou de fato, nos anos 1930, foi uma revolução. “Mas instalava quem podia”. O primeiro poste de madeira foi erguido na esquina das ruas Madalena e Wisard. “Depois puxaram outra rede para cá, que funciona até hoje. Por isso às vezes cai a força na Vila só num lado”.

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Móveis e eletrodomésticos básicos, como geladeira e fogão, chegaram alguns anos mais tarde e tiveram que conviver por um bom tempo com galinhas e patos ciscando ruas e quintais. “E todos cultivavam sua horta.”

Sair de casa, à época, era sinônimo de aventura. As casas costumavam ter na entrada uma espécie de soleira específica para retirar o barro dos pés. “Meu pai punha os tamancos e os sapatos debaixo do braço. Eu o acompanhava até o bonde, na rua Borba Gato (atual Virgílio de Carvalho Pinto), para trazer os tamancos de volta”, comenta Radil. “Às vezes ele largava no boteco da esquina”.

A água era obtida por meio de poço artesanal. “Precisava desenrolar 28 metros de corda para tirar um balde”. E a saúde da população ficava a cargo do Dr. Rafael, o ‘homem do ferro’. “Ele chegava às residências dizendo: ‘olha o ferro!'”

A escola, lembra Radil, funcionava na esquina das ruas Wisard e Fidalga –onde hoje está o Banco Bradesco. “Havia uma sociedade, chamada Amigos da Vila, que criou um salão de baile no local. No início tocava valsa, bolero, mas com o tempo chegaram outros ritmos como gafieira e samba”. O suficiente para que o pároco do bairro, Padre Olavo Pezzotti, interferisse. “Ele mandou fechar porque estava virando uma sem-vergonhice”.

Para Radil, de todas as histórias sobre a Vila, existe uma mal resolvida. Dois padres do Calvário insistiram tanto para seu pai (Sr. Muniz) construir o Cruzeiro na Igreja São Miguel Ancanjo que ele acabou cedendo. “Ele dizia que não trabalhava para padre. Mas eles vieram umas cinco vezes em casa até pôr na cabeça do velho que ele precisava fazer o serviço”.

“Meu pai construiu tudo em tijolinho aparente mas fizeram tanta força para demolir que até hoje procuro uma foto e nem a igreja tem”, lamenta. “Tudo por inveja de meu pai. Portuguesada filha da puta, veio tudo do Bixiga, Campos Elyseos, Vila Mariana… expulsa de lá. Os poderosos foram empurrando e vieram todos para cá. Português, espanhol, inglês, tudo misturado. Tinha até árabe. Era tudo cortiço”.

Outra coisa que balança Radil é a atual falta de solidariedade. “Ajudei muita gente a levantar barraco. Funcionava na base do mutirão, da amizade. Trocávamos produtos da horta, dividíamos as coisas. Hoje não se faz mais nada sem dinheiro”, conclui.

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