Vivere bene

Quem vê Rafael Pagano, o Rafa, 70 anos, a bordo de uma vespinha vermelha nem imagina a enciclopédia sobre o bairro que habita na memória. Os olhos azuis, de origem europeia, somados a certa rebeldia entregam: ascendência italiana.

Fotos: Leonardo Raposo

Rafael Pagano, o Rafa, 70 anos

“Sou do tempo em que as ruas eram de terra e as pessoas vendiam sorvete, carne, legumes… em carroça com cavalo”, diz. “Morava na Rua Harmonia, em frente ao Jacaré (bar). A descida era íngreme, havia uma cratera entre as ruas Madalena e Aspicuelta, e o acesso se dava pelo estreitamento da parede”, afirma. “Lembro que, naquele ponto, tinha um papagaio que ‘enchia o saco'”.

Rafa, que ‘invade’ os recônditos da Vila sobre a escorregadia vespa –inclusive a feira livre aos sábados–, teve recentemente problemas de saúde mas voltou inteirinho, quer dizer, sem um pedaço da língua –o que não impede de seguir contando casos e prosas. “Tive complicações na tireoide, próstata, quatro pontes de safena, língua, mas Deus não quer que vá embora, então estou por aqui.”

Rafa e sua inseparável Vespa

Palmeirense roxo (verde), não vê mais a Vila como antes. “Vejo o mundo na Vila”. E lembra com dor os amigos que partiram. “Ando triste pra burro, perdi a maioria de meus amigos, outros mudaram e, no final das contas, só conheço gente nova”, reclama. “Sou saudosista e isso me faz mal”.

Casado há 52 anos com Mércia, dois filhos (casal), 3 netos, Rafa passa boa parte do dia em seu estacionamento, na rua Fidalga. É dono de dois outros imóveis no bairro e dois costumes irrefreáveis: moto e jogo do bicho. O cara desenvolveu verdadeiras equações no caderno com possibilidades de acertar os números. Tem tudo anotado.

“Era muito bacana a Vila. As festas juninas, o 1º de Maio… Se chovia era preciso limpar os sapatos no ferrinho instalado na soleira das portas”, relembra. “Quem podia, tinha dois sapatos. Um para andar no barro das ruas, outro para entrar em casas”.

E antes que a melancolia surja, ele engata a primeira: “Só durmo numa cama, almoço uma vez por dia e moro numa casa. O que mais quero?”, questiona. “Tenho a vida na Vila Madalena como um filme guardado na memória”. E emenda: “O importante é estar vivo. Amadureceu foi embora”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Anúncios

Um pensamento sobre “Vivere bene

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s