Sopro Musical

Quando Octávio Lopes Garcia, conhecido como Bangla, toca o saxofone, não tem para ninguém. Figura conhecida na Vila Madalena, ele, que iniciou carreira como clarinetista, já trabalhou com Elis Regina e Gal Costa. Mas suas histórias vão além da apoteose e remontam a trajetória criativa de músicos que atuaram na sampa dos anos 70/80.

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“Estudei clarinete na Escola Municipal de Música e, depois, na ECA da USP”, lembra Bangla. “Devorei o Closet, livro mais completo de clarinete, em dois anos”, diz. “Então, fui convidado por colegas para tocar saxofone numa banda de música que atuava na Boca do Lixo. Tinha 17 anos.”

Na sexta, Bangla foi à casa de Bob, o cara que lidava com instrumentos, no bairro Glicério. “Perguntei se tinha um sax baratinho, ele acabou me vendendo um Galasso. Passei o fim de semana ensaiando”.

O cara acabou tocando durante anos no Night Club Michel, centrão, seguiu para a Love Story, Nick Bar, Red Club… “Cheio de traveco, puta, cafetão e o caralho”, diz. “Minha mãe queria ver, eu dizia: não pode!”. Plena Ditadura Militar, quando a ‘justa’ chegava tratavam logo de esconder o menino.

Tocou com Joelho de Porco, Som Nosso de Cada Dia e o escambau. “Aí pintou uma banda de baile do Luis Lois, amigo de Elis Regina”, recorda. “Ela estava montando Saudades do Brasil, que resultou em enorme turnê e dois LPs gravados ao vivo.”

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Bangla foi ao escritório de Elis, na Paulista, com 19 anos. Lá estava César Camargo Mariano que o entrevistou.

– Você foi indicado pelo Lois, mas há de convir que não tem histórico. Com quem você tocou?

– Toquei nas bocas, bicho! – retrucou Bangla. – Concordo que não tenho um histórico mas você precisa de músico que lê o que está escrito, certo?

“Então a Elis falou: ´hummmm… vai ter que conferir!’”

Partiu em turnê, México, EUA, Panamá, Colômbia… Mas foi com Gal Costa que chegou ao Carnegie Hall, em Nova York.

“Estávamos em turnê pela Europa há três meses, tocamos no Festival de Montreux e tínhamos data marcada no Carnegie”, relembra.

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A casa lotou. Naná Vasconcelos, Diana Ross, Pelé… No dia seguinte, pediram ao produtor de Frank Sinatra que postergasse por um dia seu show, já que muita gente não conseguiu entrar mas a resposta foi ríspida: “Nem fodendo!”.

Sobre Elis, Bangla, que chegou a conviver com ela no Morumbi entre churrascos e drinques, lamenta a morte trágica mas acha que foi no tempo certo. “Ela cantava de um jeito que arrepiava os pelos do braço. Nunca, ninguém, jamais cantará igual.”

O instrumentista caminha anônimo pelas ruas do bairro mas é reconhecido e bajulado pelos colegas – como eu. Adora uma cachacinha e quando brindamos, sempre tira da cartola mais um coelho que fascina.

Quer conhecê-lo? Vá à sua escola de música na Rua Teodoro Sampaio, 833, 1º andar, cj 3. Lá existe um acervo de memória que cobre as paredes.

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