O leiteiro da Vila

Manoel da Silva Leitão, imigrante português, bateu os olhos em Izilda quando descarregava litros de leite. Naquela época o status de leiteiro na Vila Madalena era relevante porque necessário. O pai de Izilda, seu José, já alcançara sucesso nos negócios com o armazém –e abatedouro– onde além de produtos comuns como café moído na hora, vendia carne de porco, galinha, toucinho, bacon e afins. Os animais eram abatidos atrás da mercearia em ampla área equipada.

a (12)

O português Manoel da Silva Leitão (Fotos: Leonardo Raposo)

Percussor do ‘delivery’, seu José entregava pães para reforçar o orçamento e precisava de alguém para o leite. Simpatizou com Manoel assim que o viu e contratou seus serviços.

Sempre de bom humor, óculos profundos, colares e bugigangas nos braços, Manoel representava o espírito do bairro. Discreto, cultuava uma cachacinha que ele mesmo incrementava com mel, cravo, canela e, juro, sempre que consumia a poção ficava ensandecido. Sei lá que diabos Manoel acrescentava ao caldo. Talvez, um segredo trazido da 2ª Guerra, quando fugiu de Portugal rumo a terras tupiniquins. Embalados pelo drinque, desfiávamos conversas sobre a Vila, a vida e até a morte, tornando as incertezas menos amargas.

Da união do leiteiro com a filha do comerciante nasceram seis filhos. Alexandre, o caçula, assumiu o comando do espaço, que já foi balada e restaurante mas sempre com o bar na ponta. “Meu pai acabou comprando a parte de meu avô”, diz. “O velho abasteceu a comunidade da Vila durante 80 anos.”

a (6)

Cansado das empreitadas –e problemas com o fisco, que chegou a embargar o estabelecimento–, Alexandre, que também é artista, enveredou-se por águas mornas. Abriu no anexo ao bar um orquidário –já fechado– e transformou o espaço em galeria/bar com obras de vários artistas do bairro.

No tempo em que proseava com seu pai, Manoel, nunca suspeitei que andava adoentado, mal do fígado, estômago, baço… Bebia escondido. Quando a doença avançou, ele foi hospitalizado e morreu em uma semana (julho de 2014). Sempre que entro no lugar ouço ecos da presença do português e a maneira sarcástica como via o mundo.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s