O Padeiro

Ocupada por portugueses, nos primórdios, a Vila é cheia de Manoéis. Deste, Manoel Augusto Fernandes Amorim, falo com propriedade, porque é ‘chegado’. Sua história sempre me fascinou, pela disposição com que enfrenta os baixos da vida. Emigrou de remota aldeia, Portugal, 1958, aos 14 anos, rumo ao Rio de Janeiro. Veio trabalhar na padaria do tio, já instalado no Brasil, em Belford Roxo. Porém, não recebia salário, não via a cor do dinheiro. “Um dia me enchi e parti rumo a São Paulo. Fui trabalhar em outra padaria, no Bom Retiro”, relembra.

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O português Manoel Augusto Fernandes Amorim desembarcou no Rio de Janeiro em 1958 para trabalhar na padaria do tio em Belford Roxo (Fotos: Leonardo Raposo)

Antes de chegar à Vila Madalena, Manoel passou por Vila Mariana e Ipiranga –sempre em padarias. Aqui, foi administrar o Canto Madalena, restaurante localizado a poucos metros do atual bar, o Palace Bar, na Rua Medeiros de Albuquerque. Lá, conheceu a esposa, Maria Alice, com quem teve três filhos já adultos.

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O casal Alice e Manoel no Palace Bar

“O proprietário do Canto faleceu e toda a pendurada fiscal estourou em minhas mãos”, explica. “Como o contrato era de cinco anos, passei todo esse tempo indo ao Fórum”. Somando suas economias, decidiram comprar o imóvel vizinho onde até hoje moram e têm o bar.

Como muitos imigrantes, Manoel não se limitava ao bar. Entregava pães, leite e outros produtos em comércios e residências. E como muitos imigrantes, voltou poucas vezes à terra natal. Visitou a família pela primeira vez em 1988, quando ganhou de presente do pai sua certidão de nascimento. “Está neste estado porque eles a guardavam na cozinha, entre a fuligem de anos das panelas de mamãe”, diz, enquanto mostra o desgaste do documento.

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Conhecedor das histórias do bairro e de personagens que já partiram, ele está há 13 anos no Palace. Subiu o batente da porta para evitar as costumeiras enchentes que assolam a rua e aguarda uma boa proposta para a venda do imóvel.

Há cerca de dois anos fiscais da Prefeitura o proibiram de servir os tradicionais pratos feitos por ‘falta de infraestrutura’. Desde então, dona Alice, outrora perita no fogão, pouco cozinha e passa mais tempo deitada com seus três cachorros.

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Manoel está há 13 anos no comando do Palace Bar

Manoel toca sozinho o bar, da mesma forma artesanal que aprendeu no início. Abre, limpa, serve, faz pedidos, paga contas e tenta se manter firme com a idade (73), a doença (diabetes) e outras adversidades. “Batalhei muito nessa cidade e nunca esmoreci. Mas, com o tempo, a gente vai perdendo as forças”, lastima o imigrante, baixinho, que ainda utiliza uma geringonça engraçada para pegar bebidas na prateleira.

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