Sinfonia

O Mangue, ou a favela da Vila Madalena, pouco tem de favela e mais de lugar privilegiado. Cheio de natureza, parques, grafite, quadras poliesportivas e horizonte verde, a área, encravada entre as ruas Fradique Coutinho, Rodésia e Fidalga é cheia de histórias –e lendas.

A principal delas foi escrita nos anos 1980, quando o trio de irmãos Joãozinho, Gegê e Cristiano, natos do Mangue, dominou o tráfico de drogas na região e fez a ‘playboyzada’ das redondezas cheirar pó em suas mãos. A função implodiu quando investigações da polícia detectaram ligações com o PCC (Primeiro Comando da Capital).

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Uma das casas do Mangue (Fotos: Leonardo Raposo)

Cristiano, o mais novo, foi morto numa perseguição policial, Gegê, dizem, a segunda voz do PCC, continua preso e Joãozinho, o mais velho, está prestes a ganhar liberdade mais uma vez.

Os moradores do bairro evitam falar sobre o caso mas, quando falam, lembram de fatos normais, corriqueiros, alguns inusitados. “Joãozinho sempre foi muito educado, perguntava da família, dos filhos”, lembra Manoel, à época dono do Canto Madalena, restaurante frequentado por ele e amigos.

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Gegê, ao que parece, era o mais rebelde. “Certo dia, estava no bar do Berê quando Gegê passou de carro, parou, tirou o revólver e deu um tiro na caixa de som”, diz Hugo, morador do bairro. “Depois soube que um cara que estava lá, conhecido por afanar toca-fitas de carros, tinha roubado o seu”.

Mas o Mangue, que data dos anos 1960 –cadastrado na Secretaria Municipal da Habitação como ‘Favelas Fidalga 1 e 2’–, foi formado pela população ostracizada na especulação imobiliária que começava a tomar corpo na Vila. Em resumo: serralheiros, pedreiros, marceneiros, domésticas…

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Hoje, o tráfico de drogas é reduzido e a comunidade, que tem participação em vários eventos culturais, como na escola de samba Pérola Negra (Gegê chegou a compor samba-enredo), insiste em seguir com seus rituais como o churrasquinho na calçada, som e cerveja. “Tem muita gente que se apaixona por aqui, aluga uma casa mas não suporta o movimento aos fins de semana”, afirma o marceneiro Francisco, que vive no epicentro de tudo.

Edifícios de alto padrão e grandes escritórios permeiam aos poucos as casinhas do Mangue e a discrepância de valores é assustadora. Enquanto a cozinheira Cida paga R$ 850 de aluguel numa simples casinha, apartamentos de luxo chegam a cobrar R$ 7 mil.

A verdade é que o Mangue tornou-se o pico mais ‘cool’ da Vila, um pedaço de cidadezinha de interior, onde é possível caminhar por trilhas cercadas de verde, jogar uma pelada e ouvir a sinfonia de pássaros e cigarras.

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