Ruído

A demora da Prefeitura em apresentar soluções para o Beco do Batman levou os moradores da viela a reivindicar isolamento acústico imediato de portas e janelas. São, no total, seis casas cujas famílias moram há décadas no local e viram surgir com bons olhos o movimento do grafite. Mas nunca imaginaram que aquelas simples pinturas poderiam, algum dia, atrair os olhares do mundo.

Em 2016, a bolha do turismo –impulsionada pela internet– eclodiu em grande proporção, levando a pequena comunidade a exigir iluminação e manutenção do espaço. Sim, antes Gotham City vivia às escuras. Eis que, num ímpeto de ufanismo –demanda– o ex-prefeito Fernando Haddad decide fechar o Beco para veículos e, com alarde da mídia, traz luz. A rua e os grafites seriam, finalmente, iluminados à noite.

Blocos impedem a entrada de carros no Beco do Batman (Fotos: Leonardo Raposo)

Passado mais de ano, os grotescos blocos de concreto (amenizados por pinturas) que impedem a passagem de carros seguem no mesmo lugar –com exceção do acesso às ruas Gonçalo Alonso e Medeiros de Albuquerque, onde foi construído um jardim suspenso– e os postes, que a princípio trariam clareza, transformaram-se em martírio para os residentes.

“A luz, durante a noite, está atraindo todo tipo de baderneiro”, diz o morador João Batista, há 70 anos no Beco e que, no começo, aprovou a iniciativa. “Tá difícil dormir, às vezes acordo várias vezes para pedir silêncio. Eles deveriam apagá-la às 21h, 22h”.

João Batista e a esposa, que moram há 70 anos no Beco e reclamam da movimentação noturna

A recente entrevista do subprefeito da região, Paulo Mathias, ao canal Nova Cidade, deixou Marylene Pamplona furiosa. “Ele está criando um programa de acesso ao Beco para pessoas com deficiência de mobilidade. Disse que aqui só tem turista. Quando quer voto vem, faz discurso e depois nos abandona”, reclama. “Somos seis famílias que moram aqui desde sempre, pagamos nossos impostos e exigimos respeito como cidadãos”.

Marileny já previa a catástrofe desde sua implantação. Quando soube que o ex-prefeito viria ao Beco, muniu-se de cartazes e aproveitou para protestar contra a ação, que considerava descabida. “Pode até trazer a ilusão de segurança, mas, se no escuro já tem muvuca que incomoda, imagina com luz! Vão passar a noite inteira aqui”. Profecia cumprida.

Luciene, que morá há décadas no Beco, diz não se incomodar com a movimentação de turistas

Desiludido com as promessas de recauchutagem da área, que não se cumprem, seu marido Nelson Pamplona propõe que a Prefeitura suprima os impostos das casas, já que o frenesi avançou alheio ao poder público e à revelia dos moradores. “É o mínimo que eles deveriam fazer”.

A vizinha Vera Lucia, que divide a casa com a irmã, Vânia e a mãe, Anna Rosa, de mais de 90 anos, ressalta que o abuso não se refere ao movimento de dia. “Incomoda um pouco, claro, mas o que está tirando a paz é a algazarra que acontece à noite”, explica. O movimento diurno a que Vera se refere, além do turismo, são as equipes de TV, filme, publicação, moda e o escambau que utilizam o point diariamente como cenário para as produções.

Anna Rosa reclama da algazarra que acontece à noite

Ao que tudo indica, o epicentro do conflito está no cruzamento da travessa Alonso com o Beco – a única que corta a rua –onde a iluminação foi instalada com potência e reside a maioria das pessoas. É lá que ar ‘hordas’ notívagas costumam se reunir.

O contraponto vem de Luciane, que mora a pouco metros, em pleno Beco, há, também, décadas. “Não incomoda em nada”, diz. Ela e o marido Alexandre (xande) têm oito filhos –o menor com três meses. “Acho até legal”.

No outro extremo, quase esquina com a rua Harmonia, Soninha, a moradora da outra casa na via, onde também rola um brechó, dispara: “Do jeito que está, não dá!”. Ela está formando uma comissão para apresentar projeto à Prefeitura para instalação de portões que fechem o Beco à noite.

Marileny Pamplona é contra o fechamento da rua

O imbróglio é tanto, que alguns moradores dizem preferir as enchentes que, durante as chuvas, assolam a região do que a poluição sonora que lhes rouba o descanso à noite.

O Beco do Batman, uma ruela que começa na rua Harmonia e termina na Gonçalo Afonso, é cortado pela travessa Alonso. No Beco em sí, moram três famílias. Já na Alonso, praticamente integrada ao Beco, mais três, as galerias Local Stúdio e Alma da Rua e, na esquina com a Medeiros de Albuquerque, o Clandestino e Bar do Coco.

Anúncios

Um pensamento sobre “Ruído

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s