Essência

Sempre foi costume, na Vila, costureiras e barbeiros alugarem as garagens de casas para exercer o ofício. Nos últimos tempos, porém, um número cada vez maior de grifes alocam os pequenos espaços para expor –e vender– seus produtos, que vão de jóias a cookies diferenciados. Engana-se quem pensa tratar-se de pequenos comerciantes em início de carreira; a maioria tem longa estrada no e-commerce e nome forte no mercado.

As lojinhas da rua Harmonia (Fotos: Leonardo Raposo)

Se para os empresários, a visibilidade do ponto é mais importante que a metragem, para os proprietários a segurança financeira do aluguel é determinante. Vale lembrar que muitos dos –humildes– moradores vivem de aposentadoria, a casa é o único bem e, por isso mesmo, não têm automóveis. Proposta irrecusável.

O trecho da rua Harmonia, entre a Madalena e a Wisard, é um bom exemplo da tendência. De um lado, bares e restaurantes, do outro, várias lojinhas instaladas nos pequenos cômodos.

Molhadinho

Interior da Broo’s Cookies

Durante muitos anos, dona Sônia, proprietária do imóvel de nº 366, aproveitou sua garagem para produzir e comercializar o que mais gosta de fazer: comida. As tortas, massas e bolos, feitas artesanalmente, eram entregues na porta do estabelecimento ou a domicílio.

Há cerca de seis meses, dona Sônia decidiu migrar o negócio para Alphaville e alugou o espaço para a Broo’s Cookies, especializada no biscoito. Bruna Rabelo, a criadora da marca, comemorou, pois estava de olho em algum local que merecesse seus requintados cookies.

Economista, Bruna experimentou a guloseima pela primeira vez no Canadá, durante um intercâmbio e nunca mais foi a mesma. O sabor distinto daquele cookie, ‘massinha fofa, misto de biscoito, bolo, molhadinha e cheio de chocolate’, mudou seu rumo, que partiu em direção à Inglaterra e EUA para desvendar os mistérios do produto – antes de aportar na Vila. Vai lá, tem sempre amostras de cookies com diversos sabores de brigadeiro. O difícil é sair de mãos vazias.

Veludo azul

Vizinha à Broo’s, no nº 342, Heloisa Faria locou os dois pisos para abrigar o showroom de suas coleções. Co-fundadora da marca P’tit, a moça confecciona roupa temporal, muito bem feita e ‘com assistência técnica’. “Se alguma peça rasgar, pode trazer que consertamos”, garante a estilista.

Heloísa, que reaproveita tecido vintage e obtém inspiração em filmes e viagens que faz –como a coleção de inverno 2017, inspirada na trip pela Califórnia, especificamente a Death Valley–, trouxe a atmosfera cult para a loja, bem ao estilo David Lynch, cineasta, aliás, que ela adora.

No andar superior da loja homônima, houve cancha para um pequeno –e simpático- salão de beleza, o Jardim da Grazi, antes na rua Girassol. Grazi, a dona, é toda orgânica e utiliza produtos naturais de acordo com o tipo de cabelo. E o jardim, que dá para a rua, é extensão do tratamento beauty, que incluí cadeira de massagem e banho de ofurô nos pés–cânfora e óleos essenciais.

Outra loja de roupas, a 64 Sixty Four, no nº 376 –ao lado da Hering–, existe há dois anos, já foi loja de lingerie, de jeans e prepara mais uma transmutação para virar multimarca. Mas o pontinho, pequenino, charmoso e escondidinho, está lá, sólido como uma rocha.

Arco e flecha 

A bandeira do design fica no nº 322, a cargo da Casa-Bravo, de Fernanda Veríssimo e Vitor Gruber. O casal, que tem forte e-commerce, representa pequenos produtores e fomenta as inter-relações com o intuito de incentivar, além da produção, práticas que valorizem os artistas brasileiros. Origem, história, processo, etapas e consumo consciente são algumas delas.

Os produtos para casa, cozinha e acessórios são ímpares, conversam entre si e têm o mesmo viés social, econômico e ambiental. Para gringo – e brasileiros – ver.

Os designers: Ana Neute, Danilo Costillha, Eric Ennser, Plume, Studio T44, Gabbo Torres, Jiboia Objetos, Nadezhda Rocha, Nicole Toldi, Nicole Tomazi, Outra Oficina, Rahyja Afrange, Rodrigo Khuri, Thiago Bicas, Tópico Estúdio e Select 1D.

Preciosa

Seguindo ao nº 314, depara-se com o reluzente brilho das joias da libanesa Patil Khatcherian, que fundou a marca em 2013 e está na Harmonia desde o ano passado. Descendente de família com expertise em produção de joias, Patil é apaixonada pela forma dos movimentos e mescla sua criação, com a técnica da joalheria tradicional, às novas tecnologias.

Os pingentes que produz foram as estrelas nas personagens da novela Saramandaia, em 2013.

Frascos

Como podem ver, são pequenos espaços… que querem ganhar o mundo. A loja, os objetos, o contato físico é importante, seguido das informações no e-commerce – com panorama de todos os produtos em página específica. Pois como diz o provérbio português, ‘os melhores perfumes estão nos pequenos frascos’.

Terracota

A ceramista Carol Lamaita, nº 324, pode ser considerada bairrista porque consolidou a profissão – e o nome – na própria Vila. Ela preside a ONG Arte da Vila e durante cinco anos teve ateliê na rua Girassol. Antes de abrir a lojinha, Carol participou de feiras onde traçava pontes com lojistas.

Interior da loja Carol Lamaita

“Aos fins de semana, costumava vir a uma roda de samba no barzinho em frente, onde hoje é a Bacio di Latte (sorveteria)”, lembra. “Ficava namorando essa garagem, até que um dia, dona Kátia, a proprietária, estava na escada, atravessei a rua, conversei com ela e a convenci a alugar o cômodo”.

A tese de que as vitrines se tornam atraentes para o público que frequenta os bares é aplicada na Carol Lamaita Cerâmica e Design. “Grande parte dos fregueses vem dos bares e restaurantes, principalmente do Jacaré Grill”, afirma. “Claro que a maioria já me conhece e acompanhou meu processo no ateliê.”

A ideia de desenvolver uma linha para acompanhar as belas cerâmicas foi consequência da própria ideologia de vida da ceramista. “São artigos de banho, decoração, aromatizadores, chás… Tudo proveniente de produção orgânica, sustentável, natural”, diz. “O objetivo é proporcionar momentos de bem-estar em casa e celebrar todos os dias, não apenas datas específicas”, explica.

A artista esclarece que não usa material sintético, o processo de argila é todo reciclado e a água, decantada para não levar metal pesado ao esgoto. “Nós, que moramos aqui, sabemos que corre um rio (Rio Verde) sob nossos pés”.

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