História viva

Dona Ana das Neves Costa, considerada a mulher mais idosa da Vila, completa 100 anos no dia 16 de outubro. Ela chegou à São Paulo aos 13 anos, trazida por um barão do café para trabalhar na casa do cônsul de Portugal, à av. Paulista.

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A única foto da época retrata “uma negrinha linda, com os cachos colados na cabeça e uma cor negra, brilhante”, segundo a neta Sônia (Soninha). “Engraçado que, hoje, ela é bem clarinha, então entendemos que era por causa do sol”, conclui.

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Diz a lenda que na rua Medeiros de Albuquerque, ao lado do Rio Verde, ela construiu a casa com as próprias mãos – que lavavam roupas para sobreviver. Conheceu o marido numa festa, teve com ele três filhos, dois homens (Luís e Renato) e uma mulher (Lourdes), dos quais só Lourdes vive.

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Política

As enchentes que até hoje apavoram os moradores da região, à época elevavam o nível do rio. A preocupação com os filhos pequenos era constante. “Um dia surgiu uma bola boiando na correnteza e meu filho quis pegar. Não deixei de jeito nenhum”, diz, relembrando as várias mortes no aguaceiro.

O espírito guerreiro a fez elaborar um abaixo-assinado pedindo providências para a situação, entregue à Prefeitura, sob a gestão do ex-prefeito Jânio Quadros. “No dia seguinte, chegaram vários funcionários e começaram a trabalhar para tornar o rio canalizado, no subsolo”, afirma, orgulhosa. Os vizinhos antigos reconhecem o feito.

Causos

Hoje, cega, dona Ana é puro otimismo e introspecção. Ela se diz orgulhosa do bairro que viu nascer, adora os bares, o agito, a música, e não se queixa de nada. A memória prodígia armazena histórias imperdíveis. “Não exergo com os olhos da cara, mas enxergo com os do coração”, afirma.

Entre tantas relíquias, há a volta da igreja para casa, quando ‘transmutava’ em samba as orações. “Sempre que chegávamos da missa, tinha a roda de samba da Pérola Negra (escola de samba) na frente da minha casa e tínhamos que pedir licença para entrar”, conta, entre um sorriso e outro.

“Certo dia, minha avó foi trazida para casa pelo Flavinho (Flávio Pires)”, lembra Soninha. “Parece que tinha caído na rua e ele a acorreu, levando-a para casa de carro”, diz. Ao ser questionada sobre o acidente, eis a resposta: “Imagina, adorei! Eu caí lá, o Flávio me pegou, me pôs naquele carrão, aquele gatão…”.

Soninha, um dicionário sobre as histórias da avó (são muitas), está capitaneando a festa de comemoração, que contará com um bolo de três metros, coral da igreja e, se tudo der certo, trecho da rua fechada das 15h30 às 20h. O mesmo trecho que costuma ser interditado aos domingos.

Há o desejo da família de que o grafiteiro Kobra (@kobra), que teve ateliê por anos ao lado de dona Ana – amigo de Lourdes –, pinte seu rosto para ser revelado na ocasião. A família pede, também, apoio das principais mídias do bairro, como #catracalivre #savima #antesqueavilaacabe #avozdavila #kobra etc…

*Galeria de fotos de dona Ana com filhos e amigos.

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