Cavaleiro

Cavaleiro

A última tempestade na Vila causou transtorno, inundação, blackout e levou várias árvores abaixo, entre as quais, o pé de caqui de Bruno Geai. Desolador vê-lo sentado, ao lado do que restou do caquizeiro, sem a habitual vassoura que varria as folhas da calçada.

Era uma árvore grande, que fazia sombra e no outono, época do fruto, tingia o pavimento de laranja, tamanha quantidade de caquis que despencavam maduros. Conheci Geai assim, com a vassoura em punho, ao lado da filha e, no meio da conversa, um caqui espatifou no meu braço.

Guardo na memória o enquadramento de sua figura exótica, varrendo as folhas do caquizeiro, sempre que passava pela rua Wisard. Agora, que sobrou apenas o tronco, só mesmo o tempo para restituir a cena. “Espero que a Prefeitura pode a árvore”, lamenta. O problema é que, apesar da copa inclinar sobre a calçada, está plantada no terreno do prédio, dentro do gradil.

 

Maioridade

A história de Geai, italiano legítimo nascido em Gênova, endossa a de muitos imigrantes que fugiram da Europa no pós-guerra. A diferença é que ele ascende de linhagem nobre cujos antepassados pertenceram à Ordem dos Templários. Para atestar o sangue azul, o genovês mostra, com orgulho, o brasão da família retratada em quadro (foto).

“Não havia trabalho, um amigo falou do Brasil, disse que tinha muito serviço aqui, então pequei o primeiro navio, que se chamava Raul Soares, e completei 21 anos durante a viagem”, lembra.

Antes de aportar na Vila, em 1970, Bruno, que é engenheiro, trabalhou em várias regiões da cidade. “Quando cheguei a São Paulo, em 1948, fiz a topografia de boa parte da Brasilândia”, informa. “Só se chegava ao bairro de caminhão.”

Viúvo, com quatro filhos e quatro netos, o aventureiro incorporou o ‘way of live’ da Vila com naturalidade. Adora ficar sem camisa no verão, calça jeans, cabelo desgrenhado… faz as próprias compras, cozinha e não abre mão da solidão. “Meus filhos querem que more com eles, mas, enquanto puder, prefiro viver só.”

No fundo, Geai diz isso porque sabe que na Vila ninguém está completamente só. E o pé de caqui com as folhas na calçada era um ótimo pretexto para uma prosa com um estranho. Foi assim que nos conhecemos.

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